Mão de criança segurando sementes

Berço do modo de vida guarani

Os textos dessa seção foram produzidos com base em uma conversa via vídeo-chamada entre os interlocutores Renan Pinna e Renata Abel com Marcelo Benite Kuaray Papa, cacique da comunidade guarani da Aldeia Tava’i, dentro do escopo do Projeto Nhemongarai, em 15 de abril de 2021. O texto a seguir foi elaborado por Renata Abel.

Os tcheramoi kuery, anciões Guarani, pacientemente explicam que Nhanderu Tenonde criou Yvyrupa e junto a mata, os bichinhos e tudo que existe nessa Terra, para os Guarani viverem bem. Nhanderu começou a fazer Yvyrupa em Yvymbyte, o centro da terra, região onde hoje conhecemos como “Paraguai”. Mas, eles explicam, na época tudo era Paraguai, porque essa divisão não foi Nhanderu que fez: foram os juruá (não-indígenas) que, quando chegaram aqui, começaram a chamar essa parte de Paraguai, a outra de Brasil, a outra de Argentina… Os Guarani explicam: essas divisões não existem, é tudo Yvyrupa, terra que foi feita para os Guarani viverem. Por isso cheramoi Karai Tataendy, o ancião Timoteo Oliveira, diz: “Os brancos agora estão dizendo: ‘ah, você veio do Paraguai’. Mas, antigamente, chamavam Paraguai a ilha toda, porque é uma terra única que deixaram os Nhanderu. Eles não vieram de outro lugar, não é outro país, nada.”. E é por isso, também, que o mesmo ancião explica que “nós Guarani temos vergonha de dizer que nós somos os donos da terra”, porque “Não é que nós somos os donos da Terra, ou desta terra, mas ela é para ser ocupada por nós, para ser usada por nós; foi para nós que a fizeram. Por isso nós sabemos que essa é a nossa terra, que é para ser usada por nós. O dono mesmo é Nhanderu. Este mundo não tem outros donos. (…)  Essa terra, nós só usamos.”

É na Yvyrupa que pode-se fazer tekoá. Tekoá é um termo geralmente traduzido como aldeia, por exemplo: Tekoa Tava’i, Aldeia Tava’i. Contudo, seu sentido é mais amplo. Tekoá é o lugar onde é possível viver o teko, o nhandereko (ou mbya reko): o modo de ser, estar e viver dos Guarani; seu sistema de vida tradicional, que tem como referência o modo como os antigos Guarani viviam, conforme as orientações que Nhanderu os deixou. Como explicado pela Comissão Guarani Yyyrupa, o nhandereko é como os Guarani chamam o que os juruá chamam de cultura, mas é ainda mais que é isso: “É todo o nosso modo de ser, o nosso modo de viver, o jeito como nós educamos nossos filhos e nossas filhas, como enxergamos o mundo, como nos relacionamos com a nossa espiritualidade.” Assim, tekoá caracteriza-se por ser um lugar onde é possível viver o nhandereko. Como Marcelo Kuaray Papa coloca, “tekoá é um lugar onde a pessoa vive duma forma, da forma do rito, do costume, da crença, da tradição, entretenimento,  envolve toda a vida ali [o jeito de ser, o teko], então [isso] é o tekoá”.

Para o tekoá ser berço para o florescimento do modo de vida Guarani, é preciso ter mata, água, rios, animais e todos os seres e elementos que apoiam a perpetuação do nhandereko; assim nos explicou Marcelo: “para ter um tekoá, (…) a gente precisa de um rio bom que oferece peixe pra família, a mata que oferece alguns elementos pra fazer a sua casinha tradicional, precisa de frutas nativas, algumas caças nativas para sustentar a família. Então isso que a gente precisa pra ter, pra gente vivenciar sempre a nossa cultura”. Para formar um tekoá, Marcelo explica que é necessário liberdade, é necessário um espaço adequado. No entanto, hoje em dia, os obstáculos para efetivar a vivência num espaço adequado, num tapé porã, são significativos: “Porque realmente hoje, parece que a gente tá apertado que nem uma sardinha, porque se fosse querer usufruir do espaço, não pode porque já tem divisa, porque não pode invadir, porque é proprietário particular (…) porque, hoje, se o nosso vizinho derrubar toda a mata, não vai ter mais nada, né?”, ele coloca.

É importante apontar isso pois, nas narrativas do senso comum, nas quais, a despeito de mais de 500 anos de colonização incisiva, acredita-se que os “índios”: estão (ou deveriam estar) no meio de alguma floresta distante intocada (raras e o pouco que resta configura-se geralmente como “Reserva Ambiental”, que nega aos indígenas o direito de uso tradicional da terra); possivelmente nus (pois o uso de roupas parece sinalizar uma triste “aculturação”, “perda de cultura”); e vivendo daquilo que o ambiente oferta, como o faziam quando nesta terra não havia pisado sequer o primeiro colonizador. A bolha do senso comum parece quase se ofender ao atestar que, hoje em dia, muitas comunidades indígenas têm a alimentação dependente do mercado ou de cestas básicas ou, ainda, que moram em casas de alvenaria, ou que têm televisão e celular, ou que usam calça jeans, ou quaisquer outros fatores do real que frustram o ideal do “indiozinho” construído pelo pensamento colonialista. No texto “Guata Porã”, Marcelo explica o porquê a dependência dos alimentos dos não-indígenas surge na impossibilidade de garantir o alimento nas épocas de procriação da caça, por exemplo. 

Não é à toa que Marcelo coloca que: “Por isso que para manter sempre o modo de ser guarani tem que ter tekoá, que é aldeia, onde é o espaço, o lugar que leva adiante a vida do guarani no sistema de ser tradicional”. Ainda que nos dias de hoje esses territórios sejam pedaços pequenos, recortados e separados, cercados muitas vezes por lavouras de monocultura, impactados pela construção de hidrelétricas, pelo uso de agrotóxicos ou pela construção de rodovias federais – sendo ainda muito inferiores em relação àquilo que é obrigação do Estado garantir aos povos indígenas – são mesmo cruciais para a perpetuação do nhandereko, pois, como disse Marcelo, “sem aldeia, sem tekoá, não tem como viver do modo tradicional guarani”. Nesse cenário de escassez de territórios abundantes, “A gente tem que aceitar o espaço que a gente tem, então pra nós tendo um pouquinho de espaço pra você dançar, de cantar, de entrar numa casa de reza, de plantar, vivenciar o momento, isso já é tudo pra nós (…) Então hoje, mesmo o pouquinho que a gente tem, pra nós é tudo”, Marcelo coloca, com humildade típica daqueles que são íntimos da terra.

 

Referências bibliográficas:

Comissão Guarani Yvyrupa. Nhandereko – Nosso modo de viver. Disponível em: <http://videos.yvyrupa.org.br/nhandereko-nosso-modo-de-viver/>. Acesso em: 15 de abril de 2021.

RAMO Y AFFONSO, Pesquisadores Guaranis de Aldeias de Santa Catarina e Paraná (Org.). Guata porã: Belo caminhar. São Paulo: [s.n.], 2015.