Nhemongarai

Apresentação 

O Projeto Nhemongarai surge a partir de uma aliança entre as comunidades do Cebb Floripa e Mendjilá (Canelinha)  e a Aldeia Guarani Tava’i, todas situadas no Estado de Santa Catarina. Inspirado em um trabalho que vem sendo realizado há alguns anos pelo Instituto Caminho do Meio e pelo diálogo tecido entre o Lama Padma Santem e as comunidades guarani, o projeto busca promover o fortalecimento da cultura do povo guarani a partir dos seus rituais sagrados e dos seus modos de cuidar da terra. Essa aliança atua no intuito de gerar benefícios às comunidades guarani, promover o diálogo com a sociedade envolvente e dar corpo às redes de apoio mútuo entre as comunidades Guarani e a Sangha budista da região.
O sonho do projeto adveio através de relações antecedentes de parceiros da Sangha do Cebb Floripa e Cebb Mendjila com a Aldeia Guarani Tava’i, localizada, como o Cebb Mendjila, em Canelinha. A proximidade física e sutil de ambas e o interesse laico de colaborar com as comunidades guarani – as quais passam por  obstáculos advindos do processo de colonização, que produz e resulta no esgotamento da biodiversidade – motivou o interesse de potencializar o cuidado com a terra do modo de vida guarani aliado aos conhecimentos técnicos de manejo de agroflorestas sistematizadas pelos juruá (não indígenas), mas que têm nos conhecimentos tradicionais as suas verdadeiras fontes de saber. Nesse sentido, o projeto tem como pilar a segurança alimentar e a soberania dos povos tradicionais, através do estabelecimento de redes de apoio e de retroalimentação entre o povo Guarani e a Sangha budista da região. 

Além disso, o projeto tem como aspiração tecer aproximações da visão do Dharma (do Budismo) com o Nhandereko (modo de vida guarani), especialmente daquilo que orbita o rito tradicional guarani chamado de Nhemongarai.  A intenção é poder tornar visível, a partir da ritualística Guarani, o aspecto mágico do plantio, da colheita, do manejo e, finalmente, dos modos de cuidar e reverenciar a terra. Isso reverbera num entendimento da abundância da vida que essa mesma terra faz incansavelmente brotar, a qual naturalmente desdobra-se em sentir a proteção e cuidado que os seres de sabedoria espalham sobre nós, quer os chamemos Buda ou quer os chamemos Nhanderu. Nesse sentido, o Projeto Nhemongarai aspira tanto caminhar na direção de efetivar ações concretas que fortaleçam a comunidade indígena guarani, quanto de ampliar as compreensões sutis dos sujeitos não-indígenas sobre aquilo que se relaciona com um belo viver na terra.

Territórios 

  1. Aldeia Tava’i

A Aldeia Tava’i se localiza no município de Canelinha, próximo ao litoral catarinense. A comunidade conta com 67 moradores (17 famílias) e  216 hectares, área adquirida por via de indenização da Funai na época da duplicação da BR-101 na região do Morro dos Cavalos, pela década de 2000. Fundada por André Benites Vilalba, responsável pela nomeação de “Tava’i” à aldeia e o primeiro cacique da Terra Indígena, hoje conta com a liderança de seu filho, Marcelo Benite Kuaray Papa. A comunidade vem restaurando a flora e fauna de seu território, antigamente uma fábrica de carvão, e parte dessa vivificação se dá através de projetos de plantios agroflorestais já em execução, nos quais o Projeto Nhemongarai se insere como um apoiador. 

Para saber mais acesse:

https://www.aldeiatavai.com.br/o-templo-de-pedra-guarani

  1. CEBB Mendjila 
  2. CEBB Floripa

O Centro de Estudos Budistas Bodisatva Florianópolis surgiu em março de 2008 e desde esse tempo mantém sua sede na Biblioteca Superior de Cultura – Simpozio, localizada no bairro Campeche e que pertenceu ao professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Evaldo Pauli. O Cebb Floripa segue as orientações do Lama budista Padma Samten e, ao longo desses 13 anos de existência, realizou muitas atividades relacionadas a meditação, estudo, retiros, seminários e oficinas, sempre mantendo suas portas abertas e acolhendo praticantes e interessados vindos de todas as direções. Atualmente, em decorrência da pandemia, o Cebb Floripa adaptou suas práticas de meditação e estudo para o mundo digital e optou por manter a sede física e aprofundar a relação segura com a comunidade local e com outras coletividades. Um dos novos espaços criados pelo Cebb Floripa e pela comunidade de entorno que surgiu durante o tempo da pandemia é o da Horta Sintrópica Urbana. Um espaço de encontro responsável e de cultivo da atenção sobre a terra como um símbolo de recolhimento e cuidado consigo mesmo, com os outros e com a bioesfera. O Projeto Nhemongarai vincula-se ao Cebb Floripa no sentido de apoiar e fomentar as bases para a Horta seguir crescendo e criando raízes.

(Adaptado de texto cedido por Alexandre Vieira, tutor e coordenador do Cebb Floripa).]

Atividades

Ramo de raizes de mandioca seguradas por mãos

Gerando agroflorestas

A proposta Gerando Agroflorestas tem por objetivo promover o cuidado com a terra e a produção de alimentos, para a soberania alimentar, como também para a promoção da biodiversidade nas aldeias indígenas e budistas que integram o nosso projeto. A partir da prática de cuidado com a terra e manejo ecológico conhecido como agrofloresta, as atividades têm como princípio o cultivo variado de qualidades, sempre promovendo uma alternância no cultivo que de modo gradual seja possível notar uma variedade de espécies que foram cultivadas de acordo com a sua época propícia de maturação e o seu tempo de crescimento, respeitando assim, o ciclo da natureza.

Mão segurando semente em pinça

Sementes de Saberes

A proposta dos encontros “Semente de Saberes” surge no sentido de possibilitar a aproximação e formação de vínculo entre os não-indígenas dos Cebbs Mendjilá e Guarani e os guarani da Aldeia Tava’i, dada a impossibilidade de encontros presenciais no momento atual em virtude da pandemia da Covid-19. Assim, configura-se como uma alternativa às trocas que ocorreriam entre os corpos em ambientes físicos (Aldeia Tava’i, Cebb Mendjila e Cebb Floripa), para ocorrer entre os seres em ambientes virtuais (via plataforma do Google Meet). A motivação desses encontros é, portanto, aproximar, vincular, trocar, intercambiar, afetar mutuamente, conhecer e fazê-lo junto, ainda que à distância. Para tanto, teremos dois momentos de encontros, entre junho e julho de 2021, onde contaremos com interlocutores da Aldeia Tava’i tratando de temáticas vinculadas ao Projeto Nhemongarai e, igualmente, ao modo de vida guarani. Esses encontros serão divulgados para o público amplo com antecedência. A partir das palavras generosamente sopradas nos encontros, comporemos um material em forma de livreto, que terá cópias impressas para a escola da Aldeia Tava’i, além de ser disponibilizado aqui, no site do Projeto.

Cabana de palha

Encontro Nhemongarai

O encontro Nhemongarai faz parte de uma cerimônia tradicional ao povo Guarani em que diversas qualidades de sementes são batizadas antes da sua plantação. A cerimônia serve ainda para batizar as crianças, que junto aos pais, recebem orientação de como seguir um tape porã, bom caminho, dentro da religiosidade da cosmovisão guarani. É a partir do intermédio dos tcheramoi e tchedjaryi, os anciãos e anciãs, rezadores e rezadoras que essa benção é possibilitada, através da conexão que estabelecem com as divindades que vivem nas plataformas celestes, os Nhanderu kuery. O Nhemongarai, assim como o cotidiano das casas de reza nas aldeias guarani, é povoado de cantos e danças, em um momento de confraternização e celebração da vida nas suas mais variadas formas.

  1. Espaços interculturais: Jardim da Paz, Tenda Maino’i, Bosque Guarani

Uma das linhas do projeto é a manifestação de três espaços no Cebb Mendjilá: o Jardim de Paz, a Tenda Maino’i e o Bosque Guarani. Esses espaços surgem no sentido de atentar ao solo em comum que une a todos enquanto seres. Muitas vezes as diferenças aparentes, sejam de cor de pele, culturas ou línguas que falamos, podem dar base para o apego aos grupos a que nos sentimos pertencentes. Contudo, se honrarmos o solo em comum, como o aspecto sagrado do sol que brilha e nutre a vida para todos de forma equânime e interdependente; o soprar do vento que beija as peles sejam de humanos, animais ou plantas; ou ainda a ternura de olharmos para o que se manifesta incessantemente de forma particular e original, podemos expandir nossas consciências em todas as direções. Assim, contemplando a manifestação singular da vida em cada fenômeno, não contaminados pelo apego ou aversão, podemos experimentar a sensação de sermos um com tudo e todos. Nesse sentido, esses espaços surgem como modo de sustentar um solo comum dentro do território do Cebb Mendjilá, tornando-o ainda mais poroso às trocas com os amigos Guarani da região, como também aos visitantes que chegam para os retiros. Abaixo, seguem breves descrições do sonho de cada espaço:

Jardins de paz

croqui desenho planta em espiral jardim da paz

Espaço circular ao ar livre, ao lado do Templo Mendjila (Buda da Medicina), composto das ervas medicinais tradicionais Guarani, que são a própria Mandala Botânica do Buda. Uma espiral de ervas central com várias opções para sentar, com maior ou menor sombreamento. Nesse espaço, será possível receber nossos amigos Guarani e não-indígenas, vizinhos e a comunidade local para encontros de trocas de saberes.

Tenda Maino’i

desenho croqui planta em duas parte templo lago casa e cabanas, espaço aberto multiuso

Um local coberto, de estrutura simples e piso de chão batido para fortalecer os laços que nos unem nesse caminho sobre a terra. Situa-se ao lado do Templo Mendjilá e servirá como apoio para receber as crianças durante os eventos, para oficinas diversas e também para receber amigos e nos sentarmos em torno de um fogo de chão.

Bosque Guarani

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Esse espaço leva o nome de “Bosque Guarani” por conta de ser um projeto de recuperação de uma área de platô por via do plantio de espécies nativas e sagradas para a cultura dos povos Guarani, como o cedro, a erva-mate, entre outras. A proposta se trata de concretizar um plantio em formação circular e em alinhamento com as direções celestiais (sendo um platô a leste e outro a sul), das quais tanto a cultura dos povos Guarani quanto os ensinamentos do budismo tibetano tratam sobre. Na cosmovisão budista tibetana, temos Buda Akshobia, a leste; Buda Amithaba, a oeste; Buda Ratnasambava, a sul; e Buda Amogasidhi, ao norte. Na cosmovisão guarani, Nhanderu Nhamandu, divindade respectiva ao Sol, fica a leste; Nhanderu Tupã, referente aos trovões e raios, a oeste; Nhanderu Jakairá, referente a neblina e a bruma, a sul; e Nhanderu Karai, ao norte. Assim, reverenciando as direções, dará-se nascimento a um local para atividades em grupo e circulares, como rodas de conversas, brincadeiras, danças e cantos.

croqui platô leste
croqui platô Sul

Desenhos composto por:

Rúbia

  1. Uma aproximação sobre a cultura dos povos Guarani
Mão de criança segurando sementes

Tekoá – Berço do modo de vida guarani

Os textos dessa seção foram produzidos com base em uma conversa via vídeo-chamada entre os interlocutores Renan Pinna e Renata Abel com Marcelo Benite Kuaray Papa, cacique da comunidade guarani da Aldeia Tava’i, dentro do escopo do Projeto Nhemongarai, em 15 de abril de 2021. O texto a seguir foi elaborado por Renata Abel.

Os tcheramoi kuery, anciões Guarani, pacientemente explicam que Nhanderu Tenonde criou Yvyrupa e junto a mata, os bichinhos e tudo que existe nessa Terra, para os Guarani viverem bem. Nhanderu começou a fazer Yvyrupa em Yvymbyte, o centro da terra, região onde hoje conhecemos como “Paraguai”. Mas, eles explicam, na época tudo era Paraguai, porque essa divisão não foi Nhanderu que fez: foram os juruá (não-indígenas) que, quando chegaram aqui, começaram a chamar essa parte de Paraguai, a outra de Brasil, a outra de Argentina… Os Guarani explicam: essas divisões não existem, é tudo Yvyrupa, terra que foi feita para os Guarani viverem. Por isso cheramoi Karai Tataendy, o ancião Timoteo Oliveira, diz: “Os brancos agora estão dizendo: ‘ah, você veio do Paraguai’. Mas, antigamente, chamavam Paraguai a ilha toda, porque é uma terra única que deixaram os Nhanderu. Eles não vieram de outro lugar, não é outro país, nada.”. E é por isso, também, que o mesmo ancião explica que “nós Guarani temos vergonha de dizer que nós somos os donos da terra”, porque “Não é que nós somos os donos da Terra, ou desta terra, mas ela é para ser ocupada por nós, para ser usada por nós; foi para nós que a fizeram. Por isso nós sabemos que essa é a nossa terra, que é para ser usada por nós. O dono mesmo é Nhanderu. Este mundo não tem outros donos. (…)  Essa terra, nós só usamos.”

É na Yvyrupa que pode-se fazer tekoá. Tekoá é um termo geralmente traduzido como aldeia, por exemplo: Tekoa Tava’i, Aldeia Tava’i. Contudo, seu sentido é mais amplo. Tekoá é o lugar onde é possível viver o teko, o nhandereko (ou mbya reko): o modo de ser, estar e viver dos Guarani; seu sistema de vida tradicional, que tem como referência o modo como os antigos Guarani viviam, conforme as orientações que Nhanderu os deixou. Como explicado pela Comissão Guarani Yyyrupa, o nhandereko é como os Guarani chamam o que os juruá chamam de cultura, mas é ainda mais que é isso: “É todo o nosso modo de ser, o nosso modo de viver, o jeito como nós educamos nossos filhos e nossas filhas, como enxergamos o mundo, como nos relacionamos com a nossa espiritualidade.” Assim, tekoá caracteriza-se por ser um lugar onde é possível viver o nhandereko. Como Marcelo Kuaray Papa coloca, “tekoá é um lugar onde a pessoa vive duma forma, da forma do rito, do costume, da crença, da tradição, entretenimento,  envolve toda a vida ali [o jeito de ser, o teko], então [isso] é o tekoá”.

Para o tekoá ser berço para o florescimento do modo de vida Guarani, é preciso ter mata, água, rios, animais e todos os seres e elementos que apoiam a perpetuação do nhandereko; assim nos explicou Marcelo: “para ter um tekoá, (…) a gente precisa de um rio bom que oferece peixe pra família, a mata que oferece alguns elementos pra fazer a sua casinha tradicional, precisa de frutas nativas, algumas caças nativas para sustentar a família. Então isso que a gente precisa pra ter, pra gente vivenciar sempre a nossa cultura”. Para formar um tekoá, Marcelo explica que é necessário liberdade, é necessário um espaço adequado. No entanto, hoje em dia, os obstáculos para efetivar a vivência num espaço adequado, num tekoá porã, são significativos: “Porque realmente hoje, parece que a gente tá apertado que nem uma sardinha, porque se fosse querer usufruir do espaço, não pode porque já tem divisa, porque não pode invadir, porque é proprietário particular (…) porque, hoje, se o nosso vizinho derrubar toda a mata, não vai ter mais nada, né?”, ele coloca.

É importante apontar isso pois, nas narrativas do senso comum, nas quais, a despeito de mais de 500 anos de colonização incisiva, acredita-se que os “índios”: estão (ou deveriam estar) no meio de alguma floresta distante intocada (raras e o pouco que resta configura-se geralmente como “Reserva Ambiental”, que nega aos indígenas o direito de uso tradicional da terra); possivelmente nus (pois o uso de roupas parece sinalizar uma triste “aculturação”, “perda de cultura”); e vivendo daquilo que o ambiente oferta, como o faziam quando nesta terra não havia pisado sequer o primeiro colonizador. A bolha do senso comum parece quase se ofender ao atestar que, hoje em dia, muitas comunidades indígenas têm a alimentação dependente do mercado ou de cestas básicas ou, ainda, que moram em casas de alvenaria, ou que têm televisão e celular, ou que usam calça jeans, ou quaisquer outros fatores do real que frustram o ideal do “indiozinho” construído pelo pensamento colonialista. No texto “Guata Porã”, Marcelo explica o porquê a dependência dos alimentos dos não-indígenas surge na impossibilidade de garantir o alimento nas épocas de procriação da caça, por exemplo. 

Não é à toa que Marcelo coloca que: “Por isso que para manter sempre o modo de ser guarani tem que ter tekoá, que é aldeia, onde é o espaço, o lugar que leva adiante a vida do guarani no sistema de ser tradicional”. Ainda que nos dias de hoje esses territórios sejam pedaços pequenos, recortados e separados, cercados muitas vezes por lavouras de monocultura, impactados pela construção de hidrelétricas, pelo uso de agrotóxicos ou pela construção de rodovias federais – sendo ainda muito inferiores em relação àquilo que é obrigação do Estado garantir aos povos indígenas – são mesmo cruciais para a perpetuação do nhandereko, pois, como disse Marcelo, “sem aldeia, sem tekoá, não tem como viver do modo tradicional guarani”. Nesse cenário de escassez de territórios abundantes, “A gente tem que aceitar o espaço que a gente tem, então pra nós tendo um pouquinho de espaço pra você dançar, de cantar, de entrar numa casa de reza, de plantar, vivenciar o momento, isso já é tudo pra nós (…) Então hoje, mesmo o pouquinho que a gente tem, pra nós é tudo”, Marcelo coloca, com humildade típica daqueles que são íntimos da terra.

Referências bibliográficas:

Comissão Guarani Yvyrupa. Nhandereko – Nosso modo de viver. Disponível em: <http://videos.yvyrupa.org.br/nhandereko-nosso-modo-de-viver/>. Acesso em: 15 de abril de 2021.

RAMO Y AFFONSO, Pesquisadores Guaranis de Aldeias de Santa Catarina e Paraná (Org.). Guata porã: Belo caminhar. São Paulo: [s.n.], 2015.

Mãos trancando cesto de palha colorida

Tape porã – Mobilidade guarani e sua relação com o cosmos 

Os textos dessa seção foram produzidos com base em uma conversa via vídeo-chamada entre os interlocutores Renan Pinna e Renata Abel com Marcelo Benite Kuaray Papa, cacique da comunidade guarani da Aldeia Tava’i, dentro do escopo do Projeto Nhemongarai, em 15 de abril de 2021. O texto a seguir foi elaborado por Renan Pinna.

Na cultura guarani o caminhar tem um significado fundamental para se pensar o mundo, as relações, e o modo tradicional de viver nesta terra. Ao falar sobre caminhar, não estamos falando somente de caminhar no sentido literal mas também metafórico, isto é, o caminho não somente enquanto andar, mas também, e sobretudo, como modo de se comportar e de viver nesta terra. Neste sentido, a expressão tape porã, usualmente traduzida como um bom caminho, não significa apenas um caminho, uma trilha, considerada boa na perspectiva guarani. Mas também, um modo de vida, um modo de comportamento ancorado nos costumes dos anciãos, no próprio nhandereko, o modo de vida tradicional do povo guarani. Há vários pilares e ensinamentos fundamentais que guiam esse caminhar nesta terra, um deles está ancorado no estabelecimento contínuo da vida espiritual, vivenciada através da casa de reza, na opy, onde cantos e danças são realizadas, e que são inspiradas nos cantos e danças dos ancestrais, que vivem na plataforma celeste juntos aos deuses cantando e dançando também. Na casa de reza, o amba, instrumento de comunicação divina com os seus ancestrais, usualmente traduzido como altar, permite o recebimento de ensinamentos, cantos, e orientações que são destinadas aos cheramois e chary’i para que repassem a comunidade o modo de vida mais propício para alcançar o lugar junto aos ancestrais após a morte, lugar esse, chamado Yvy Marae’y, lugar em que nada perece, tudo que existe perdura, onde não é necessário se plantar, já que as plantas nascem sozinhas, onde não há morte, e nem sofrimento também. Ao contrário, nesta terra, considerada imperfeita, há doenças, e o corpo padece, e todos os elementos são imperecíveis. No passado, antes da invasão dos brancos no território guarani, onde se podiam caminhar com liberdade, onde não havia cercas, propriedade privada, e nem mesmo fronteiras, os Guarani podiam caminhar livremente e viver um modo de visa mais próximo do que vivem os ancestrais nas plataformas celestes, o que possibilita um corpo mais apto para alcançar esse lugar, que hoje encontra limitações por não viverem um modo de vida tão próximo quanto viviam antigamente, pela destruição das matas e pela extinção de seres que eram fundamentais para o seu modo de vida. Nessa época, os Guarani caminhavam para encontrar nos portais sagrados que os levariam para a Yvy Marae’y. Mas não era somente esse motivo de cunho mais religioso que os faziam se mover constantemente, mas também, visando dar um descanso aos lugares que habitavam para que as matas pudessem estar se regenerando, um modo de respeitar o tempo de fertilidade dos seres das florestas, buscando assim outros lugares para viverem até que esses antigos lugares estivessem de novo regenerados ecologicamente. Por conta dessa mobilidade, os Guarani ficaram conhecidos como um povo nômade, mas isso não confere, pois como nós vimos, essa mobilidade está ancorada na religiosidade e em tecnologias de cuidado com o mundo que vivem.

Nhemongaraí - Uma reverência à vida 
Milhos de diferentes tipos ao fundo do texto

Nhemongaraí – Uma reverência à vida 

Os textos dessa seção foram produzidos com base em uma conversa via vídeo-chamada entre os interlocutores Renan Pinna e Renata Abel com Marcelo Benite Kuaray Papa, cacique da comunidade guarani da Aldeia Tava’i, dentro do escopo do Projeto Nhemongarai, em 15 de abril de 2021. O texto a seguir foi elaborado por Renan Pinna.

Na tradicionalidade religiosa do povo Guarani, um ritual bastante conhecido, ao qual geralmente traduzimos como “bênção” ou “batismo”, faz-se presente e tem importância significativa no calendário anual do povo Guarani, como é o Nhemongarai. O termo passou a ser interpretado pelos juruá, não-indígenas, como um “batismo”, fato que faz com que muitos pensem que tal ritual se trate de uma herança colonialista da conversão cristã. No entanto, o ritual do Nhemongarai tem base própria na cultura guarani, e o próprio significado do termo nos revela uma não dualidade entre reverenciar a vida de seres das suas mais variadas formas, como plantas, vegetais, não havendo a dualidade entre cultura e natureza, impregnada nos termos ocidentais.

Por Nhemongarai, entendemos como encontros espirituais para celebrar a vida, sendo que ‘nhe’e é o termo usado para “ser-espírito”, e que neste caso faz referência às crianças que serão batizadas. No ritual os espíritos dessas crianças se conectam por intermédio dos cheramõi as divindades que vivem nas moradas celestes e por comunicação desses que seus nomes na língua guarani são revelados aos pais e a toda comunidade. Neste momento, recebem um nome para a sua alma, algo marcante e que carregarão para toda vida. Esses nomes, são também, modos de conhecer a personalidade e o histórico da alma da criança. O nome permite saber de qual direção da plataforma celeste que o nhee oriunda e para onde futuramente irá retornar após a morte do corpo. Portanto, os deuses são portadores de orientação aos nhee para chegar a terra. A partir do nome, muitos podem inclusive fazer algumas previsões, por exemplo, o potencial da criança vir a ser um rezador ou rezadora ou mesmo, um oporaiva, rezadores que curam pelos cantos sagrados.

O encontro Nhemongarai marca ainda o início do calendário guarani em que as estações do ano são divididas em dois tempos dentro do ano. Um tempo conhecido como tempo novo, e o outro conhecido como tempo antigo, sendo o Nhemongaraí realizado para marcar o tempo novo, em que há o florescimento das flores e plantas, permitindo assim, o florescimento das mudas que vão ser plantadas, nesse encontro de celebração da vida de diversas qualidades de seres vivos. Mas o Nhemongaraí não serve somente as crianças, mas segundo Marcelo Kuaray, serve também aos adultos, pois é no momento de batismo dos filhos que os pais recebem aconselhamentos de como seguir um tape porã, que se trata de seguir um bom caminho dentro dos ensinamentos da religiosidade guarani, o que permite que vivem no nhandereko, o modo de vida dos ancestrais, que hoje vivem junto às divindades na plataformas celestes, e que guiam os Guarani nos seus caminhos para que um dia possam conviver juntos na Yvy Marae’y

Mão segurando instrumento musical de corda similar a violino

Mborai miri – Ressonâncias de fortalecimento e resistência

Os textos dessa seção foram produzidos com base em uma conversa via vídeo-chamada entre os interlocutores Renan Pinna e Renata Abel com Marcelo Benite Kuaray Papa, cacique da comunidade guarani da Aldeia Tava’i, dentro do escopo do Projeto Nhemongarai, em 15 de abril de 2021. O texto a seguir foi elaborado por Renata Abel.

O cântico representa essa liberdade, de ter, ser paz no coração.”
Marcelo Benite Kuaray Papa

Para tratar do universo dos cantos guarani, podemos fazer uma distinção de ao menos duas categorias: os mborai ou tarova, àqueles que se cantam dentro do opy, os “cânticos sagrados da casa de reza”, como disse Marcelo; e os mborai mirim ou mborai oka reguá, àqueles que o coral ou “grupo de cantos” entoam, cantados em espaços abertos. Os cânticos sagrados do opy acompanham rituais e cerimônias, como o Nhemongarai, e pedem mais concentração para serem entoados, escutados e sentidos. Além disso, não é qualquer pessoa que os canta: quem o entoa é geralmente aquele que se dedica ao caminho espiritual, ao tape porã, o belo caminho. Já os cantos do coral, “é mais pra animar o espírito, animar a sua força (…) é uma música de consolo também, de consolar os seus próximos… porque às vezes através dos cânticos também a gente recebe a nossa sabedoria, fortalecimento, então.. é o cântico mais pra se animar espiritualmente”, explica Marcelo. Os corais guarani são compostos por jovens e crianças e começaram a existir e se multiplicar por volta da década de 90, sendo o “registro oficial” dessa empreitada em direção aos ouvidos não-indígenas o álbum Ñande reko arandu (2000), gravado no estado de São Paulo. Aos poucos, as comunidades de outras regiões também foram criando seus grupos e, atualmente, a maioria das aldeias guarani conta com seu respectivo coral.

A motivação desses grupos, além de animar e fortalecer o espírito, é funcionar como uma estratégia para mostrar-se aos não-indígenas e assim garantir o respeito e o reconhecimento: “hoje o grupo de cânticos leva o modo, o jeito, o costume, a cultura pra que o não-indígena possa conhecer um pouco através das músicas”, coloca Marcelo e, não à toa, diz que o grupo de cantos é como um “grito de liberdade”. Por isso, ele segue explicando, as crianças e jovens cantantes dos corais são reconhecidos como xondaro e xondaria kuery, guerreiros e guerreiras das comunidades, pois se apresentam nas escolas, universidades, teatros, em pontos culturais… “Eles tão levando o nosso pedido de respeito (…) pela cultura indígena, então eles levam ao mesmo tempo nossa resistência”. Assim, o grupo de cantos se manifesta como uma estratégia de resistência, de reconhecimento e de demarcação dos territórios sutis e concretos que os Guarani ocupam, há muitos anos e até hoje. Por isso que, frente às dificuldades de um mundo colonizado e colonizante, Marcelo diz que “a gente vai ter que resistir e insistir, pra que a nossa cultura possa ser ouvida através do canto”. Os cantos são uma maneira, aparentemente indireta mas totalmente eficaz, de desmanchar distâncias estabelecidas pelo preconceito, racismo e/ou estigma, pois são como flechas lançadas ao coração – servem não para guerrear com as pessoas, mas para destruir sua ignorância: “Através do cântico, mesmo [se] a pessoa não querer ver o grupo se apresentando, mas a pessoa vai tá ali, e qualquer momento vai tocar no coração o cântico porque a pessoa tá, as músicas entra no coração pra conquistar as pessoas, para respeitar a cultura”.

Mas sobre o que os cantos dos corais tratam, então? Marcelo oferece algumas perspectivas: “Às vezes um cântico representa a liberdade, um cântico representa o respeito pela mata, pelo rio, às vezes o canto representa o nosso Pai Sol, (…) agradecendo o Sol, de ter oportunidade de ver o dia, o amanhecer”. Além disso, coloca ainda que “a gente vai falar da beleza mas da beleza que a divindade oferece, a beleza do Sol, a beleza de um rio, a beleza da mata, (…) a gente vai tá agradecendo o que o mundo oferece pra nós”. Assim, os cantos evocam e apoiam o lembrar-se de Nhanderu, da origem do espírito, e assim se levantar para seguir caminhando, alegrando-se e fortalecendo-se. Nos termos budistas, talvez se possa dizer que os cantos manifestam uma Terra Pura, um lugar favorável para praticar ações virtuosas. Para tentar figurar um pouco desses sentidos e sentimentos cantados, Marcelo sugeriu um canto, do qual é autor, junto com sua tradução:

Mba’epú 

(Instrumentos Tradicionais Guarani)

Mba’epú onhendú      O violão está tocando
takuapú onhendú        a taquara artesanal está tocando
popyguá onhendú       a varinha tradicional está tocando
Opy’i re mbora’i onhendú,   na casa cerimonial estão se ouvindo os cantos
opy’i re mbora’i onhendú
    na casa cerimonial estão se ouvindo os cantos

Marcelo compartilha algumas palavras acerca desse cântico, colocando que é “uma música que reflete muito o respeito pela casa de reza, e o respeito pelos instrumentos tradicionais”. O sentido do canto, embora pareça “simples” quando tomado na sua tradução para o português, aprofunda-se de acordo com o entendimento que cada pessoa guarani nutre no seu caminhar no modo de vida guarani. Assim, parece coerente dizer que pode levar uma vida para entender com profundidade e amplidão o significado e sentido de apenas uma música. Além disso, a intensidade com que um canto pode fortalecer, inspirar, alegrar e ensinar parece depender do quanto seu sentido profundo se realiza nos corpos (da pessoa e entre as pessoas). Afinal, os cantos não são “escritos”, eles vêm através da concentração e da inspiração, “nascem dentro do opy, através do tcheramoi, através do sonho, através de uma criança nasce uma música”, Marcelo explica. Assim, os cantos evocam a memória ancestral e tornam-a viva no agora e, por conta disso, são “uma música de fortalecimento, uma música que vai trazer paz, harmonia, alegria pra comunidade.”

Por fim, Marcelo evidencia o potencial de produzir saúde (física, emocional e espiritual) dos cantos, quando coloca que  “uma música pra mim, quando tu sente rebaixado assim né, no fundo assim, você começa a cantar, ou pegar instrumento sagrado, te tira na hora [do fundo]”. Assim, os cantos guarani trazem em si inteligências capazes de alegrar o espírito e o corpo, de transmitir saberes e sabedorias, de fortalecer e encorajar os que caminham nessa terra. Pode-se dizer que são um modo tradicional dos Guarani de adiar o fim do mundo, para aludir a Krenak (2019), e é feliz a constatação de que, mesmo com as circunstâncias terem se transformado radicalmente nas últimas dezenas ou centenas de anos, isso tem funcionado.

Referências Bibliográficas:

ABEL, Renata. “Lá no alto se canta o tempo inteiro”: formas de ensinamentos Guarani-Mbya e o potencial dos cantos como (trans)formação. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Ciências Sociais) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2019.

KRENAK Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2019.MACEDO, Valéria. Dos cantos para o mundo: Invisibilidade, figurações da cultura e o se fazer ouvir nos corais guarani”. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 51, p. 357-400, 2012.

Notas de rodapé:

Tcheramoi kuery: lit. “nossos avós” [voltar no texto]

Yvyrupa: Plataforma terrestre; numa aproximação à compreensão não indígena, a Terra. [voltar no texto]

1.“…Os brancos agora estão dizendo…”: Na página 18 do livro Guata porã (2015). [voltar no texto]

“…Não é que nós somos os donos..”: Na página 17 do livro Guata porã (2015). [voltar no texto]

Nhandereko: Nhande: nós (inlusivo); reko: costume, jeito, modo, regras. [voltar no texto]

Tekoá porã: Na página 18 do livro Guata porã (2015). [voltar no texto]

Opy: Casa de reza. [voltar no texto]